
Não foi apenas uma crítica técnica sobre o jogo. Foi uma fala que ultrapassou o campo e entrou em um território muito maior: o do respeito.
Por Camila Furtado
Em fevereiro de 2026, durante a partida entre Red Bull Bragantino e São Paulo Futebol Clube, um comentário direcionado à atuação de uma árbitra ganhou as redes sociais. Não foi apenas uma crítica técnica sobre o jogo. Foi uma fala que ultrapassou o campo e entrou em um território muito maior: o do respeito.
E é aí que a conversa deixa de ser sobre futebol — e passa a ser sobre família.
Dentro das nossas casas, no sofá onde acompanhamos a partida, havia crianças ouvindo. Filhas percebendo como mulheres são tratadas quando ocupam posições de autoridade. Filhos assimilando, muitas vezes sem perceber, qual é o tom aceitável quando se fala de uma profissional.
Crianças aprendem muito mais pelo que observam do que pelo que explicamos. Se diminuímos uma mulher quando ela erra — como qualquer profissional pode errar — estamos ensinando que sua autoridade pode ser questionada de maneira diferente da dos homens. Se defendemos o respeito, mesmo quando discordamos, ensinamos maturidade.
Valorizar a mulher não é um discurso ideológico. É uma postura cotidiana. É reconhecer que mulheres estudam, se preparam, lideram, arbitram jogos, comandam empresas, dirigem escolas e sustentam lares. Quando uma profissional é criticada com argumentos que ultrapassam sua função, a mensagem que chega às crianças não é sobre desempenho — é sobre valor.
E isso forma caráter.
Nossas filhas precisam crescer confiantes de que podem ocupar qualquer espaço com competência e dignidade. Nossos filhos precisam compreender que liderança e capacidade não dependem de quem exerce a função, mas da forma como ela é exercida.
Futebol é paixão. Mas educação é responsabilidade.
Se desejamos uma geração que respeite mulheres no trabalho, na escola, na sociedade ou no esporte, precisamos começar pelo comentário feito no intervalo do jogo. Pelo tom que adotamos. Pela conversa que conduzimos depois.
Porque nossos filhos não estão apenas assistindo à partida.
Eles estão assistindo a nós.



